Como o estresse afeta a aprendizagem?

O estresse e os desafios relacionados à saúde mental são uma preocupação crescente. A pandemia COVID-19 trouxe um efeito nocivo sobre nosso bem-estar. 

Todos integrantes da família foram afetados, desde os idosos mais vulneráveis, os adultos, os adolescentes, que já enfrentam uma fase de mudança e também as crianças.

O mais crítico para as crianças e adolescentes é que quanto mais adversas são essas experiências de estresse nessa fase, maior é a probabilidade de apresentar atrasos no desenvolvimento e problemas de saúde, como cardiopatias, diabetes, abusos de drogas, ansiedade e depressão, além de outros problemas de saúde, além das dificuldades de aprendizagem, nosso enfoque aqui.

Diante do estresse, o corpo e o cérebro ficam em alerta: produzem adrenalina, aumentam a frequência cardíaca e liberam mais hormônios, como o cortisol. Depois de um certo tempo, é esperado que a resposta se atenue, e o corpo volte ao estado natural.

O estresse é uma resposta fisiológica a uma situação adversa. Quando produzido, desencadeia todas essas mudanças químicas no nosso corpo, que afetam os sistemas imunológico, endócrino e neurológico.

E depois do evento estressante a situação de alerta diminui, mas se o estresse continuar, a resposta se mantém constantemente ativa, inclusive quando já não existe um perigo aparente.

Neste estágio, o organismo é alterado pelos efeitos do estresse tóxico e crônico, o cérebro chega ao seu estado de exaustão (burnout, sem energia) levando a alterações nos mecanismos atencionais, na aquisição de memória e na evocação de informações já armazenadas, todos os processos essenciais na aprendizagem.

Sabe, quando a palavra está na ponta da língua e você não consegue se lembrar mesmo quando conhece o assunto? Esse efeito do esquecimento pode ser devido tanto ao estresse quanto ao somatório de mecanismos que afetam a atenção, inibição da memória operacional ou pelo bloqueio da evocação da memória de longo prazo, é o famoso “deu um branco!”.

Transtornos de Aprendizagem e efeitos do estresse

Crianças e adolescentes com transtornos de aprendizagem (dislexia, discalculia, disortografia, TDAH, etc.) podem ter necessidades e dificuldades específicas no ambiente escolar, tornando o processo de aprendizagem por si só estressante, agora, soma-se a esse quadro os fatores estressantes da pandemia. O cenário é assustador!

Por suas vulnerabilidades neurocognitivas e seu histórico de frustrantes experiências e fracassos na escola, o estresse pode ocupar um lugar de destaque na vida dos alunos com Transtornos de Aprendizagem.

Porque muitos alunos não entendem o motivo de terem tantos desafios comparados aos seus colegas, eles atribuem suas dificuldades a uma falta de habilidade/talento para aprender ou mesmo uma falta de inteligência. Como resultado, desenvolvem baixa autoconfiança e baixa estima.

O estresse crônico que vem do medo do fracasso (considerado por eles como inevitável), sem meios de solucionar seus problemas com a leitura, a escrita e as operações matemáticas, resulta em mudanças no cérebro que têm um efeito prejudicial na atenção, funções executivas, memória e consequentemente no aprendizado.

Estes motivos explicam porque muitos alunos têm uma capacidade reduzida de lidar com as expectativas sociais, escolares e comportamentais, sendo cada vez mais complexas ao longo da vida escolar e também nas relações sociais.

Muito frequentemente, as reações ao estresse e o enfrentamento das suas dificuldades são mal interpretadas como desmotivação e até preguiça, algumas crianças e adolescentes recebem rótulos bem cruéis que não favorecem em nada o seu desenvolvimento cognitivo.

Além disso, muitos alunos com transtornos de aprendizagem são mal diagnosticados e tratados de forma inadequada e o ciclo do estresse continua a prejudicar cada vez mais suas funções cognitivas e a comprometer seu aprendizado ao longo da vida.

Bem, mas em meio a todo esse caos, há boas notícias!

Um dos empolgantes desenvolvimentos da neurociência é a descoberta de que o cérebro é flexível e pode se adaptar a mudanças. Esta característica é chamada de neuroplasticidade, significa que cada experiência a que nos expomos tem a capacidade de mudar e fortalecer nosso cérebro.

Uma habilidade essencial para o gerenciamento do estresse é a capacidade de sair do piloto automático, e para isso precisamos ter modelado novos hábitos saudáveis e temos a neuroplasticidade a nosso favor.

Isso é alcançado através de técnicas de atenção plena, práticas de relaxamento e praticando estratégias de cuidado na alimentação, higiene do sono, e práticas que promovam o bem estar físico como um todo.

4 fatores protetores das funções cognitivas no cérebro

Prática de atividade física. Há vários estudos que demonstram os efeitos da atividade física na saúde, e também nas funções executivas, especialmente com o controle inibitório (supressão deliberada de respostas impulsivas).

Nutrição (alimentação balanceada). Vários processos cerebrais, como regulação das vias de neurotransmissores, transmissão sináptica, fluidez da membrana e vias de transdução de sinal, mostraram ser influenciados por fatores nutricionais.

Sono restaurador. Durante o sono profundo na fase restaurativa há aumento da ativação das estruturas cerebrais, incluindo as regiões medial temporal e frontal medial associadas aos processos de aprendizagem e memória.

Práticas de atenção plena e meditação. De acordo com estudos e pesquisas da área de neurociência, foi sugerido que a atenção plena envolve autorregulação, autoconsciência e regulação das emoções.

Como lidar com situações estressantes

Além destes fatores protetivos, que nos ajudam a ter uma saúde blindada aos efeitos tóxicos do estresse prolongado, podemos aprender como reagir quando formos expostos a situações desafiadoras, confira a seguir:

  • Investir tempo para buscar relaxamento durante o dia a dia (passatempos, artes, música, massagem, etc.)
  • Técnicas de atenção plena e contemplativas (meditação, contato com natureza, etc.
  • Técnicas de respiração diafragmática
  • Terapia psicológica, principalmente a abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental, devido a evidências de melhores resultados.

Como promover a aprendizagem em meio ao estresse?

Para responder essa questão eu precisaria de tempo para desenvolver uma tese de mestrado, pois o processo de aprendizagem é bem complexo.

[Anotei a ideia para não esquecer!]

Podemos, porém, investir em estratégias que já foram apontadas pela Neurociência como efetivas e que envolvem resumidamente:

  1. Técnicas de estudo e aprendizagem autorregulada (tema dos meus estudos e em breve compartilho mais com vocês);
  2. Emprego de Neurodidática nas escolas, estratégias de ensino-aprendizagem que sejam significativas;
  3. Estimulação cognitiva, principalmente das funções executivas (atenção, controle inibitório, memória operacional, etc.), através de exercícios e treinos que funcionam como uma ginástica para o cérebro;
  4. Terapia da Aprendizagem através de intervenções psicopedagógicas que estabelecem estratégias para minimizar os efeitos e tratam as causas das dificuldades de aprendizagem.

Você pode conferir em outros artigos alguns exemplos práticos para estimular o desenvolvimento saudável do cérebro do seu filho, confira aqui.

Para contemplar a complexidade da aprendizagem, sobretudo durante esse período que vivenciamos muito estresse, ressalta-se a importância do olhar de diferentes profissionais, tanto da área da educação como da área da saúde, incluindo educadores, psicopedagogos, neurologistas, psicólogos e fonoaudiólogos, que aliado ao acolhimento da família podem promover não só o sucesso escolar, mas o pleno desenvolvimento.

Conte comigo! 🙂

*Fontes consultadas para fazer esta síntese:

Tortella, G.R.; Seabra, A.B.; Padrão, J.; Díaz-San Juan, R. Mindfulness and Other Simple Neuroscience-Based Proposals to Promote the Learning Performance and Mental Health of Students during the COVID-19 Pandemic. Brain Sci.2021, 11, 552. https://doi.org/10.3390/brainsci11050552

Schultz, J. The Impact of Stress on Cognition and Behavior in Students with LD & ADHD, and Other Special Needs: What to Know and What to Do. Published IN 2011 by Jossey-Bass.

Bruce S. McEwen, Huda Akil. Revisiting the Stress Concept: Implications for Affective Disorders .Journal of Neuroscience 2 January 2020, 40 (1) 12-21; DOI: 10.1523/JNEUROSCI.0733-19.2019

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